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Rio de Janeiro,27/02/2026

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    Erica Matos

    NINHO DA IMPUNIDADE

    Nossa Justiça não enxerga culpa do Flamengo

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    NINHO DA IMPUNIDADE Meninos mortos no Ninho do Urubu

    Dez meninos queimados vivos. O alvorecer gelado da tragédia se fez silêncio. O Clube de Regatas do Flamengo entregou as cinzas para os pais enterrarem, e a justiça, nossa justiça, não enxerga culpa do clube.

    O Flamengo tirou meninos pobres de casa, com a sedutora promessa de uma carreira no futebol. Entregou luto. O Ninho do Urubu era o ninho da morte. Um alojamento improvisado, sem alvará, sem ventilação, com apenas uma porta de saída, o ninho da agonia. E agora, o ninho da impunidade.

    Nesta quarta-feira, 22 de outubro, a decisão da Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (36ª Vara Criminal) absolveu os sete acusados vinculados ao incêndio que, em fevereiro de 2019, ceifou a vida de dez adolescentes da base do Flamengo e deixou três feridos. 

    O juiz responsável, Tiago Fernandes de Barros, alegou a “impossibilidade de individualizar condutas culposas com relevância penal” entre dirigentes do clube, engenheiros e prestadores de serviços.

    As famílias reagiram com dor e indignação: chamaram de “falha grave da Justiça”, de afronta à memória das vítimas. 
    O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro declarou que vai recorrer da decisão. 

    E é preciso que se diga: a absolvição não apaga a estrutura que falhou. Não apaga o alojamento improvisado, contêineres colocados para dormir garotos entre 14 e 16 anos, sem alvará adequado, segundo a prefeitura.

    Não apaga que o fogo teve início em um aparelho de ar-condicionado, e que o revestimento inflamável ajudou a tragédia a se consumar. 
    Não apaga que 16 atletas viviam ali, dormindo, confiando no sonho que o clube lhes ofereceu, e que um muro de responsabilidades se ergueu entre a promessa e o enterro.

    Eles foram jovens demais para morrer. Foram sonhadores. Foram furtivos no amanhã. E agora, diante da lei, o amanhã parece não ter dono.

    O tribunal está dizendo, sem dizer em voz alta, que está tudo bem colocar vidas em risco. Se der morte, não vai dar em nada. Só falta escrever na porta do tribunal. Bem-vindos à pátria das tragédias sem culpados. Dos crimes sem criminosos.

    Mas eu me recuso a aceitar esse silêncio. Eu me recuso a ser cúmplice da minha própria indiferença. Porque permitir que se absolva quem prometeu proteção e falhou, é assinar o passaporte da impunidade.

    E o que resta para essas famílias não é senso de justiça, mas o peso da ausência. A lembrança dos rostos: cada um dos dez nomes: irmãos, filhos, promessas, reduzidos a manchetes e memoriais. A memória chora, e o mundo parece ter virado a cara.

    Hoje, no futebol, no direito, na moral, onde foi parar o valor da vida?

    Se um clube gigantesco pode dizer “não fui eu”, “não sabíamos”, “não respondo por isso”, então qual o limite da negligência humana? Qual o valor atribuído a cada menino que saiu de casa com bola no pé e esperanças no peito?

    Se mesmo diante de provas, de testemunhas (mais de 40 ouvidas), se mesmo diante da dor que nunca vai embora, a sentença diz “improcedente”, então o que mais precisamos para acreditar que o sistema tem rachaduras?

    Então escrevo, com a voz que ainda ecoa no alojamento que nunca deveria ter existido, para dizer que a justiça pode falhar, mas nós não podemos. Que a história desses meninos não seja enterrada no esquecimento, junto com as cinzas que seus pais receberam. Que o sonho por eles aceso, o mais simples dos sonhos: de jogar bola e viver, não morra junto com eles.

    Que o ninho da impunidade não vire padrão. Que cada clube, cada gestor, cada instituição que trata jovens como mercado ou ponte para glória, lembre: antes da promessa, cabe a segurança. Antes do brilho dos holofotes, cabe a dignidade. Antes do aplauso, cabe a responsabilidade.

    Hoje, sinto no peito a chama apagada desses meninos, e onde havia sonho, habita agora uma ferida aberta. Que se recuse a cicatrizar. Porque se cicatrizar, a lição não será aprendida, a culpa não será assumida, o futuro continuará a ter crianças arriscando a vida por uma promessa afinada com o eco da impunidade.

    Eles não morreram por acaso. Eles foram mortos por silêncio e aberturas que não foram fechadas. Eles foram apagados por uma decisão que diz: “não há culpa identificada”.

    E nós, leitores, torcedores, seres humanos, somos convocados a não deixar que esse “não culpado” vire norma. Porque no futebol, como na vida, não se trata apenas de gols e troféus. Trata-se de vidas. Trata-se de respeito. Trata-se de que, quando alguém vai dormir, ele volte vivo pela manhã.

    Que fique registrado aqui, no portal Craques da Rede, com voz alta, com o peso da memória, que “ninguém viu culpa” não significa “ninguém teve culpa”. Que as cinzas não sejam juntas, as vozes não sejam caladas, os nomes não se percam.

    E que, algum dia, a justiça seja motivo de alívio, não de choro.

    Até lá, que o ninho se transforme , não em memorial imóvel de um erro, mas em alerta vivo para que jamais se repita.




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