Erica Matos
A Esperança Não Sai de Campo
Neymar vai?
Neymar Jr.Da Vila Belmiro aos maiores palcos da Europa. O garoto virou estrela, e o Brasil nunca deixou de esperar por ele. E é ano de Copa do Mundo.
Quando o calendário vira para ano de Copa, o Brasil muda junto. A conversa muda, o olhar muda, o coração acelera. A amarelinha deixa de ser uniforme e vira símbolo. E, no meio dessa expectativa coletiva, existe um nome: Neymar.
O talento que encantou no Santos, conquistou a Champions com o Barcelona, acumulou títulos, prêmios, números históricos. Um jogador que transforma ousadia em assinatura. Mas também um jogador marcado por interrupções doloridas. Em 2014, o sonho quebrado por uma joelhada. Em 2018, a frustração. Em 2022, a eliminação que deixou gosto de quase. E agora, às portas de mais um Mundial, a dúvida pairava no ar.
Será que ainda cabe? Na semana passada, muita gente já não o colocava na lista. Chamaram de acabado. De passado. O futebol é cruel na velocidade dos julgamentos.

Foto de Créditos: Jamie McDonald/Getty Images
O futebol é cruel na velocidade dos julgamentos. E talvez a gente também tenha sido. Porque, em muitos momentos, esquecemos que Neymar é humano. Que sente dor. Que convive com frustrações. Que carrega pressões que ultrapassam o campo.
Tratamos como máquina quem nunca deixou de ser humano. Cobramos como se fosse obrigação encantar todos os dias, como se genialidade não tivesse fases, como se corpo não cansasse, e como se adoecer, operar, se recuperar, não fosse um processo doloroso e solitário.
E sim, Neymar vacila. Mas quem não vacila?
Ele erra decisões, responde mal, provoca, exagera. É imperfeito. Como todos nós. A diferença é que, no futebol, a gente exige perfeição, e perfeição não existe.
No futebol, um erro vira manchete. Uma falha vira sentença. Um silêncio vira crise. E muitas vezes confundimos preço com valor.
Falamos da fortuna que ele construiu, como se dinheiro anulasse dor. Como se contratos milionários comprassem joelhos intactos, noites tranquilas ou paz interior. Como se sucesso financeiro fosse blindagem emocional.
E no meio de tudo isso, a gente julgou demais.
E então veio ontem. Dois gols. Decisivo. Participativo. Vivo.
Não foi apenas uma vitória. Foi uma lembrança. A lembrança de que talento não desaparece. De que chama pode oscilar, mas não necessariamente apaga. De que, às vezes, tudo o que um jogador precisa é de uma noite para reacender um país.
Se na semana passada Neymar parecia distante da Copa, hoje ele já volta a caber na imaginação do torcedor. E é por isso que a gente ama o futebol. Porque ele não respeita roteiro fechado. Porque desafia lógica, estatística, tendência. Porque até o último minuto tudo pode mudar. Porque um jogador desacreditado pode, em 90 minutos, devolver esperança a milhões.
O hexa é um sonho antigo. A amarelinha pesa, emociona, cobra. E no fundo, o que a gente quer é viver de novo aquele instante em que o improvável vira realidade.
O futebol é paixão. É memória. É esperança. É fé.E enquanto houver bola rolando, sempre haverá espaço para recomeços.
Talvez seja cedo para cravar destinos. Mas é cedo demais para desistir de sonhar. Porque no futebol, e na vida, a esperança é a única coisa que nunca sai de campo.




COMENTÁRIOS